Entre demonstrações em praças, desafios e gerações de alunos, o mestre de Bento Ribeiro ajudou a construir uma parte fundamental da história da arte suave no Brasil.
Em 1956, um menino de cinco anos que apanhava de outra criança na rua encontrou um caminho para aprender a se defender. Um padeiro percebeu o que acontecia e pediu autorização à mãe do garoto para levá-lo a uma academia de Jiu-Jitsu.
O menino era Wilson Pereira Mattos. O professor que o receberia era Oswaldo Fadda.
Décadas depois, já reconhecido como mestre, Wilson ainda se lembraria da data em que começou a treinar: 22 de abril de 1956. A precisão dessa lembrança ajuda a perceber o tamanho que aquele encontro ganhou em sua vida. O garoto levado à academia por um vizinho cresceria, receberia a faixa-preta e passaria a ensinar outras pessoas.
A história de Fadda pode ser contada por seus desafios, por sua graduação ou pelos nomes que passaram por sua escola. Mas também pode começar assim: com uma criança, uma preocupação de família e alguém do bairro que conhecia um lugar onde ela poderia encontrar ajuda.
Foi em relações como essa que o Jiu-Jitsu criou raízes no subúrbio carioca.
Antes de ser mestre, um aluno de Luiz França
O caminho de Oswaldo Fadda começou em 1937, quando servia no Corpo de Fuzileiros Navais e iniciou seu aprendizado com Luiz França. Cinco anos depois, em 1942, recebeu a faixa-preta e passou a transmitir os conhecimentos que havia adquirido.
Esse começo pertence a um período em que o Jiu-Jitsu brasileiro ainda construía suas escolas, suas formas de organização e sua presença pública. Para compreender a trajetória daqueles professores, é preciso lembrar que a modalidade estava longe da estrutura de campeonatos e da circulação de informações que o praticante encontra hoje.
O conhecimento dependia muito da proximidade entre as pessoas. Era necessário chegar até um professor, acompanhar suas aulas e permanecer por tempo suficiente para aprender.
Fadda se tornou um desses pontos de encontro. Em janeiro de 1950, abriu a Academia Fadda, em Bento Ribeiro. O bairro seria a base de sua atuação e permaneceria ligado ao seu nome por toda a vida.
A partir daquele endereço, seu trabalho ganharia continuidade nas mãos de alunos que também se tornariam professores.
A arte suave chegava à praça
Para apresentar o Jiu-Jitsu à população, Fadda e seus alunos realizavam demonstrações em clubes, praças, pátios de igrejas e eventos ao ar livre.
Há algo significativo nessa escolha de espaços. Uma demonstração pública permitia que a luta fosse conhecida por quem ainda não tinha procurado uma academia. O encontro com a modalidade podia acontecer no próprio bairro, em um lugar familiar, diante de pessoas que viam aquelas técnicas pela primeira vez.
A divulgação passava pelo corpo em movimento: pelo aluno que participava da apresentação, pelo professor que demonstrava e pela proximidade de quem assistia.
Esse trabalho ajuda a explicar a ligação de Fadda com o subúrbio. Ensinar ali e circular por esses espaços ampliava as oportunidades de contato com a prática. A academia se inseria na vida da comunidade, e seus alunos também participavam da tarefa de torná-la conhecida.
É uma dimensão da história do esporte que merece atenção. Antes de um praticante disputar um campeonato ou pensar em chegar à faixa-preta, alguém precisa lhe apresentar a luta.
O menino que voltou ao tatame
A trajetória de Wilson Mattos permite olhar mais de perto para o que acontecia depois desse primeiro contato.
Seu caminho como aluno teve dificuldades. As lembranças reunidas em sua biografia descrevem uma criança de temperamento difícil, envolvida em brigas dentro da academia e punida com suspensões. O próprio Wilson reconheceria, mais tarde, que havia dado motivos para as punições.
Fadda, porém, voltava a recebê-lo.
A relação atravessou os anos. O menino amadureceu, continuou treinando e recebeu a faixa-preta em 1970. Depois, começou a dar aulas em um clube em Realengo, formando sua própria equipe.
Esse percurso oferece uma medida concreta da influência de um professor. Entre a chegada de uma criança à academia e a formação de um novo instrutor existem anos de convivência, correções e aprendizado.
No caso de Wilson, o trabalho continuou em outros tatames. Sua equipe cresceu e chegou a diferentes países. O aluno que um dia precisou ser levado pela mão até uma academia passou a ser a pessoa que recebia novos praticantes.
Quando Bento Ribeiro entrou nos desafios
A escola de Fadda também conquistou espaço no ambiente competitivo de sua época. Os encontros com representantes da academia Gracie se tornaram alguns dos episódios mais conhecidos de sua trajetória.
Essas disputas colocavam frente a frente alunos de escolas diferentes e davam visibilidade ao trabalho de seus professores. Para a equipe de Bento Ribeiro, eram oportunidades de apresentar, diante de adversários reconhecidos, o que vinha sendo desenvolvido nos treinos.
As chaves de pé aparecem com frequência nos relatos sobre os alunos de Fadda. O domínio dessas técnicas se tornou uma das marcas associadas à escola e à memória dos confrontos.
As versões sobre os desafios diferem em datas, número de lutas e placares. Essa parte da história exige cuidado, especialmente quando episódios distintos acabam reunidos em uma única narrativa. O que se pode acompanhar nas biografias é a projeção alcançada por Fadda e por seus representantes naquele cenário.
Bento Ribeiro tinha uma escola capaz de entrar nessas disputas e fazer seu trabalho ser reconhecido.
Da rivalidade à organização do esporte
A relação entre aqueles mestres também passou pela construção institucional da modalidade.
Em 1967, com a criação da Federação de Jiu-Jitsu da Guanabara, Fadda assumiu a vice-direção técnica, ao lado de Carlson Gracie, responsável pela direção técnica.
O episódio amplia o olhar sobre sua participação na história. Além das aulas e dos desafios, havia o trabalho de organizar o esporte: estabelecer critérios, discutir regras e dar estrutura às competições.
A presença de Fadda nesse processo mostra como sua atuação alcançou diferentes frentes. O professor de Bento Ribeiro participou tanto da formação cotidiana de alunos quanto da organização de uma modalidade que começava a ganhar outra dimensão.
As rivalidades de academia faziam parte daquele mundo, assim como a necessidade de trabalhar em conjunto para que ele crescesse.
Os alunos levavam a escola consigo
Outro nome importante nessa continuidade foi Deoclécio Paulo, conhecido como Mestre Deo.
Aluno de Fadda desde jovem, Deo seguiu carreira militar. As transferências para diferentes lugares abriram caminhos para que também ensinasse Jiu-Jitsu fora de seu bairro de origem.
Passou por localidades do Rio de Janeiro, deu aulas no Chile e, depois de retornar ao Brasil, estabeleceu seu trabalho em Brasília, onde criou a Associação Deo Jiu-Jitsu.
Ao acompanhar essa trajetória, é possível perceber como a expansão de uma escola acontece na prática. Um aluno muda de cidade por causa do trabalho, reúne interessados e começa a ensinar. O conhecimento adquirido anos antes passa a fazer parte da rotina de pessoas que nunca conheceram o professor original.
Foi assim que a influência de Fadda alcançou lugares distantes de Bento Ribeiro: por meio da vida e do trabalho de seus discípulos.
Um caminho que chega à GFTeam
Outra ligação passa por Monir Salomão, faixa-preta de Fadda e professor de Julio Cesar Pereira.
Julio começou a treinar com Monir em 1974 e permaneceu sob sua orientação até receber a faixa-preta. Mais tarde, ajudaria a construir o trabalho ligado à Universidade Gama Filho e, posteriormente, a GFTeam.
A equipe ganhou projeção internacional e formou competidores como Rodolfo Vieira. Para o público que conhece o Jiu-Jitsu pelos grandes campeonatos, essa conexão aproxima a história de Fadda de nomes e conquistas mais recentes.
Entre uma geração e outra houve professores ensinando, alunos amadurecendo e novas academias sendo abertas. As técnicas passaram por outras experiências e continuaram a se desenvolver.
A escola de Bento Ribeiro participou dessa história por meio das pessoas que formou.
O que permanece de um professor
Oswaldo Fadda morreu em 2005, depois de uma vida ligada ao Jiu-Jitsu e ao bairro onde construiu seu trabalho.
Em maio daquele ano, o senador Arthur Virgílio apresentou ao Senado Federal um requerimento de voto de pesar por seu falecimento. O documento destacou sua contribuição para a formação de atletas na periferia do Rio de Janeiro.
O reconhecimento registrava uma parte essencial de sua trajetória: a de professor que ajudou a tornar a prática presente na vida de outras pessoas.
Há resultados desse trabalho que podem ser acompanhados em nomes de equipes, graduações e trajetórias esportivas. Outros aparecem em lembranças muito pessoais, como a de Wilson Mattos, capaz de guardar por décadas a data de sua primeira aula.
Em 1956, um padeiro procurou uma academia para ajudar um menino. Encontrou a escola de Oswaldo Fadda.
Anos depois, aquele menino também abriria as portas para seus próprios alunos. E a história continuaria.
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