Chamado de hadaka-jime no Judô e rear naked choke no exterior, o estrangulamento pelas costas atravessou gerações até se tornar uma das técnicas mais emblemáticas do Jiu-Jitsu brasileiro. Mas a história por trás do nome “mata-leão” guarda uma curiosidade que poucos praticantes conhecem.
Quem começa no Jiu-Jitsu não demora muito para conhecer o mata-leão.
A posição é uma das imagens mais reconhecíveis da luta agarrada: o atleta conquista as costas, controla o adversário, envolve o pescoço com o braço e busca o estrangulamento.
Hoje, basta reproduzir o gesto para que praticamente qualquer praticante de Jiu-Jitsu saiba exatamente do que se trata.
Mas existe uma pergunta que talvez muita gente nunca tenha feito:
Por que esse golpe é chamado de mata-leão?
A técnica não nasceu com esse nome. Muito antes de a expressão fazer parte do vocabulário do Jiu-Jitsu brasileiro, estrangulamentos dessa família já estavam presentes nas artes de luta japonesas.
Para entender como chegamos ao mata-leão, é preciso voltar algumas gerações.
Antes do mata-leão, existia o hadaka-jime
No Judô, o hadaka-jime (裸絞) integra o grupo dos shime-waza, as técnicas de estrangulamento.
O próprio nome ajuda a compreender sua característica.
“Hadaka” pode ser traduzido como “nu”, enquanto “jime” está relacionado ao estrangulamento. A ideia é diferenciar a técnica dos estrangulamentos que dependem da utilização da gola ou de outra parte do judogi.
Ou seja: o pescoço pode ser atacado diretamente, sem que o tecido do uniforme seja utilizado para produzir o estrangulamento.
É daí que também vem a expressão consagrada em inglês: rear naked choke, frequentemente abreviada como RNC.
O “naked” não significa, evidentemente, que os atletas estejam sem roupa. A expressão indica justamente que o estrangulamento é executado sem utilizar o uniforme como instrumento principal da finalização.
Com o desenvolvimento do Jiu-Jitsu no Brasil, porém, essa família de técnicas ganharia uma denominação muito mais peculiar.
Mata-leão.
Mas por que “mata-leão”?
A associação entre um estrangulamento e a ideia de derrotar um leão é muito mais antiga do que o próprio Jiu-Jitsu brasileiro.
Uma das referências mais conhecidas está na mitologia grega.
No primeiro dos famosos Doze Trabalhos de Hércules, o herói recebe a missão de derrotar o Leão de Nemeia, uma criatura cuja pele seria impenetrável às armas convencionais.
De acordo com o mito, Hércules percebe que suas armas não seriam suficientes e acaba enfrentando o animal diretamente, matando-o por estrangulamento.
A cena atravessou séculos e foi representada inúmeras vezes na arte.
Em algumas dessas representações, Hércules aparece envolvendo o pescoço do leão com os braços. Para quem pratica uma arte de grappling, a semelhança visual com um estrangulamento é inevitável.
A imagem ajuda a entender por que a expressão “mata-leão” parece tão natural quando associada a uma técnica desse tipo.
Mas existe outra história, muito mais próxima do Jiu-Jitsu brasileiro, sobre a popularização desse nome nos tatames.
Reylson Gracie e a origem do apelido
Uma das versões mais conhecidas sobre a origem da expressão dentro do Jiu-Jitsu envolve Reylson Gracie, integrante da família Gracie.
Segundo um relato atribuído a Reylson e registrado pelo BJJ Heroes, a expressão teria começado a ganhar espaço no ambiente do Jiu-Jitsu brasileiro durante a década de 1960.
A história envolve outro personagem importante das artes marciais: Masutatsu “Mas” Oyama, fundador do Kyokushin Karate.
Oyama construiu uma imagem pública associada à força física, aos treinamentos extremamente duros e às famosas demonstrações de poder que ajudaram a criar sua reputação no mundo das artes marciais.
De acordo com o relato de Reylson, em 1963 ele teria visto fotografias de Mas Oyama e feito uma associação.
Oyama seria como um “leão”: um adversário extremamente forte e difícil de enfrentar.
Ainda assim, na visão de Reylson, mesmo alguém daquele porte poderia ser derrotado caso um praticante conseguisse conquistar suas costas e encaixar corretamente o estrangulamento.
Seria, portanto, uma técnica capaz de derrotar até um “leão”.
Um mata-leão.
O apelido teria começado a circular no ambiente do Jiu-Jitsu e do vale-tudo brasileiro e, com o passar dos anos, acabou incorporado definitivamente ao vocabulário da modalidade.
Uma história que exige uma ressalva
Como acontece com muitos episódios dos primeiros anos do Jiu-Jitsu brasileiro, é importante separar documentação histórica de tradição oral.
Não existe um registro definitivo que permita determinar, sem qualquer dúvida, uma data exata ou uma única pessoa responsável pela criação da expressão “mata-leão”.
A própria associação entre estrangular e derrotar um leão é muito anterior aos Gracie, como demonstra a história de Hércules e do Leão de Nemeia.
O relato de Reylson Gracie, porém, oferece uma explicação sobre como o termo teria sido incorporado e popularizado dentro do ambiente do Jiu-Jitsu brasileiro.
E a expressão funcionou tão bem que atravessou gerações.
Do tatame brasileiro para o mundo
Enquanto o nome ganhava espaço no Brasil, o estrangulamento continuava demonstrando uma característica que explica sua longevidade: eficiência.
Quando um atleta consegue conquistar as costas de um adversário e controlar corretamente a posição, o pescoço se torna um dos principais alvos disponíveis.
O vale-tudo ofereceu um ambiente perfeito para demonstrar isso.
Sem depender do kimono, o estrangulamento podia ser aplicado contra adversários vindos de diferentes modalidades e com diferentes características físicas.
Com a expansão internacional do Jiu-Jitsu brasileiro e, posteriormente, o crescimento do MMA, o rear naked choke tornou-se uma das finalizações mais reconhecidas pelo público mundial.
Mesmo quem nunca vestiu um kimono provavelmente já viu a posição sendo aplicada em uma luta.
No Brasil, entretanto, outro nome permaneceu muito mais forte.
Mata-leão.
Hadaka-jime, rear naked choke e mata-leão são exatamente iguais?
É comum tratar os três nomes como sinônimos, mas existe uma nuance importante.
Hadaka-jime designa uma família de estrangulamentos sem utilização do judogi dentro da classificação técnica do Judô. Existem formas de execução que não são necessariamente idênticas ao encaixe que hoje muitos praticantes de Jiu-Jitsu imediatamente imaginam quando escutam “mata-leão”.
No BJJ e no grappling moderno, tornou-se especialmente característica a configuração em que o braço estrangulador envolve o pescoço, a mão desse braço busca o bíceps do braço oposto e a outra mão auxilia no fechamento da posição, frequentemente posicionada atrás ou ao lado da cabeça.
Portanto, embora os termos estejam historicamente e tecnicamente relacionados, é mais preciso enxergá-los como pertencentes à mesma família de estrangulamentos do que afirmar que toda execução chamada de hadaka-jime será visualmente idêntica ao mata-leão moderno.
O que realmente acontece em um mata-leão?
Apesar do nome agressivo, o objetivo técnico do mata-leão aplicado corretamente no contexto esportivo não é simplesmente pressionar a parte da frente do pescoço.
O encaixe eficiente busca produzir compressão nas laterais do pescoço, reduzindo temporariamente o fluxo sanguíneo que chega ao cérebro.
Por isso, um mata-leão bem executado pode obrigar o adversário a desistir rapidamente.
Também é por esse motivo que existe uma regra fundamental no treinamento: sentiu que o estrangulamento encaixou, bata.
E, para quem está aplicando, a responsabilidade é igualmente clara: sentiu o adversário desistir, solte imediatamente.
O objetivo dentro da academia é treinar e voltar no dia seguinte.
Simples de reconhecer, difícil de dominar
Talvez parte da força simbólica do mata-leão esteja justamente em sua aparente simplicidade.
Não há necessidade de utilizar a lapela.
Não existe uma sequência visualmente extravagante.
O objetivo parece evidente: conquistar as costas, controlar o adversário, chegar ao pescoço e finalizar.
Mas quem treina sabe que entre entender o objetivo e executar a técnica contra alguém que está tentando escapar existe uma distância enorme.
Antes do estrangulamento vêm a conquista das costas, o controle do quadril, a posição da cabeça, a batalha pelas mãos, a manutenção dos ganchos ou de outras formas de controle e a capacidade de impedir que o adversário gire e escape.
Só depois vem a finalização.
É exatamente essa combinação entre um princípio relativamente simples e uma execução altamente técnica que mantém o mata-leão relevante independentemente da época.
O Jiu-Jitsu mudou. O mata-leão permaneceu.
O Jiu-Jitsu passou por uma transformação gigantesca nas últimas décadas.
Novas guardas apareceram.
Sistemas de passagem se tornaram cada vez mais sofisticados.
Berimbolos, inversões e diferentes formas de conquistar as costas modificaram o jogo competitivo.
Os ataques às pernas passaram por uma verdadeira revolução técnica.
O grappling sem kimono ganhou sistemas próprios e um nível de especialização que seria difícil imaginar algumas décadas atrás.
Mas, depois de toda essa evolução, uma coisa permanece.
Conquistar as costas e encaixar um mata-leão continua sendo uma das maneiras mais eficientes e definitivas de terminar uma luta.
As formas de chegar até ele podem ter mudado.
O objetivo final continua praticamente o mesmo.
Um nome que virou parte da cultura do Jiu-Jitsu brasileiro
É difícil determinar o momento exato em que uma expressão usada dentro de uma academia deixa de ser apenas um apelido e passa a fazer parte da cultura de uma modalidade inteira.
Com o mata-leão, aconteceu algo parecido.
Uma família de estrangulamentos com raízes muito anteriores ao desenvolvimento do Jiu-Jitsu brasileiro encontrou no Brasil um nome próprio.
O golpe atravessou a era do vale-tudo, acompanhou a internacionalização do Jiu-Jitsu, tornou-se presença constante no MMA e chegou ao século XXI como uma das finalizações mais reconhecidas das lutas agarradas.
Talvez um faixa-branca que aprenda a técnica hoje nunca tenha ouvido falar em hadaka-jime.
Talvez não conheça Reylson Gracie, Mas Oyama ou a história do Leão de Nemeia.
Mas provavelmente aprenderá duas palavras ainda nos primeiros meses sobre o tatame:
mata-leão.
E poucas técnicas representam tão bem uma característica fascinante da história do Jiu-Jitsu.
Movimentos atravessam países.
Técnicas atravessam gerações.
Os detalhes evoluem, novas escolas surgem e os nomes podem mudar.
O estrangulamento já existia muito antes.
Mas o mata-leão tornou-se parte da linguagem — e da história — do Jiu-Jitsu brasileiro.

