UFC entra de vez no Jiu-Jitsu e começa a construir seu próprio ecossistema no esporte

UFC amplia investimento no Jiu-Jitsu com eventos profissionais, cinturões e o UFC BJJ Opens, criando uma estrutura que vai da base à elite do grappling.

Com eventos profissionais, cinturões, grandes nomes do grappling e a criação do UFC BJJ Opens, organização amplia presença no Jiu-Jitsu e aposta em uma estrutura que vai da base ao alto rendimento

O UFC já não está apenas flertando com o Jiu-Jitsu. Depois de décadas tendo a arte suave como uma das modalidades fundamentais para o desenvolvimento do MMA, a maior organização de artes marciais mistas do mundo passou a investir diretamente no esporte e começa a construir um ecossistema próprio para o grappling.

O movimento ganhou força em 2025 com o lançamento do UFC BJJ, uma série de eventos profissionais dedicada exclusivamente ao Jiu-Jitsu. Pouco mais de um ano depois, o projeto cresceu: ganhou campeões, nomes de destaque do cenário internacional, eventos recorrentes, um reality show e, mais recentemente, uma competição aberta para atletas de diferentes idades e níveis técnicos.

A chegada do UFC BJJ Opens talvez seja o sinal mais significativo dessa expansão.

Se inicialmente o UFC BJJ poderia ser interpretado como mais uma promoção voltada à elite do grappling, os Opens mostram uma ambição maior: criar uma porta de entrada para competidores e estabelecer um caminho que possa levar um atleta dos torneios abertos até os grandes eventos da organização.

Do UFC BJJ 1 à consolidação de um circuito

O projeto foi oficialmente apresentado em junho de 2025. O primeiro UFC BJJ aconteceu no dia 25 daquele mês, durante a International Fight Week, em Las Vegas.

Logo na estreia, a organização deixou claro que não pretendia tratar o Jiu-Jitsu apenas como uma atração complementar ao MMA.

O UFC BJJ 1 colocou três cinturões em disputa. Mikey Musumeci e Rerisson Gabriel disputaram o título peso-galo, enquanto Andrew Tackett e Andy Varela lutaram pelo cinturão dos meio-médios e Carlos Henrique e Danilo Moreira decidiram o título dos leves.

Antes mesmo do primeiro evento, o UFC também lançou o UFC BJJ: Road to the Title, reality inspirado no formato consagrado pelo The Ultimate Fighter.

No programa, atletas leves e meio-médios foram divididos em equipes comandadas por Mikey Musumeci e Rerisson Gabriel, competindo por oportunidades dentro da nova organização.

Era o primeiro sinal de que o projeto pretendia ir além de cards esporádicos.

Eventos, campeões e estrelas do grappling

A evolução aconteceu rapidamente.

Em 2026, o UFC BJJ passou a realizar eventos com frequência e chegou ao UFC BJJ 10 em agosto, novamente no Meta APEX, em Las Vegas.

Nomes importantes do cenário internacional passaram pelo projeto, enquanto atletas como Mikey Musumeci, Andrew Tackett, Mason Fowler e outros começaram a ocupar posições de destaque dentro da estrutura da organização.

O UFC também passou a promover disputas femininas e novos cinturões, ampliando gradativamente suas categorias.

No UFC BJJ 10, por exemplo, Andrew Tackett defendeu o título dos meio-médios contra Jonnatas Gracie, enquanto Brianna Ste-Marie conquistou o cinturão peso-pena feminino diante de Rebeca Lima. O evento ainda contou com um Grand Prix feminino visando definir as finalistas para o cinturão dos moscas.

E a sequência já está definida.

O UFC BJJ 11 está programado para 24 de setembro, com Mikey Musumeci enfrentando Bryce Mitchell na luta principal. No mesmo card, Mason Fowler encara Nick Rodriguez em disputa de cinturão.

Mais do que a quantidade de eventos, a presença de atletas estabelecidos no cenário mundial mostra que o UFC começa a disputar atenção — e talento — dentro do mercado do grappling profissional.

UFC BJJ Opens muda o tamanho da aposta

A criação do UFC BJJ Opens, anunciada em maio de 2026, adicionou uma nova dimensão ao projeto.

Diferentemente dos cards profissionais, o circuito foi criado para permitir a participação de atletas de diferentes idades e níveis de experiência.

O primeiro evento aconteceu em Las Vegas, no dia 22 de agosto, e foi anunciado como o primeiro de quatro Opens planejados para 2026. A organização também já sinalizou a intenção de ampliar o calendário em 2027.

Na prática, o UFC começa a criar algo que ainda não existia dentro de sua estrutura de Jiu-Jitsu: uma base competitiva própria.

Segundo a proposta apresentada pela organização, iniciantes podem utilizar os Opens para adquirir experiência, enquanto atletas das divisões avançadas terão a oportunidade de chamar a atenção do UFC BJJ.

Isso não significa que vencer um Open garanta automaticamente um contrato profissional. Mas o próprio UFC apresenta o circuito como uma possível porta de entrada para seu sistema.

E essa conexão já começa a aparecer na prática: o card divulgado para o UFC BJJ 11 reserva uma luta entre Kolby Gonzalez e um vencedor do UFC BJJ Opens.

É um detalhe importante.

O UFC deixa de trabalhar somente com atletas que já chegaram ao topo e passa a criar um mecanismo para observar novos talentos dentro de suas próprias competições.

Um Jiu-Jitsu pensado também como entretenimento

Outro ponto importante está nas regras.

O UFC BJJ não simplesmente importou integralmente um formato tradicional de competição.

As lutas profissionais são realizadas em três rounds de cinco minutos e adotam um sistema de julgamento inspirado na lógica dos esportes de combate promovidos pela organização. A estrutura também busca valorizar tentativas de finalização, progressão posicional e ofensividade.

Há ainda um espaço de competição próprio, conhecido como The Bowl, com laterais inclinadas projetadas para diminuir interrupções quando os atletas chegam aos limites da área.

Nos UFC BJJ Opens, a organização também afirma ter ajustado regras e pontuação com o objetivo de estimular ofensividade, ritmo e busca pela finalização.

A intenção é evidente: apresentar um Jiu-Jitsu que funcione não apenas para quem está competindo, mas também para quem está assistindo.

Esse talvez seja um dos maiores desafios históricos da modalidade.

O Jiu-Jitsu possui enorme profundidade técnica, mas nem sempre suas regras e dinâmicas são facilmente compreendidas pelo público que não pratica o esporte. O UFC tenta atacar justamente esse ponto ao combinar competição de alto nível com elementos de apresentação já consolidados no MMA.

De Royce Gracie ao UFC BJJ

Existe ainda um componente histórico impossível de ignorar.

Quando Royce Gracie entrou no octógono no UFC 1, em 1993, o Jiu-Jitsu brasileiro utilizou o UFC como uma enorme vitrine internacional.

As vitórias do brasileiro ajudaram a apresentar a eficiência da modalidade para milhões de pessoas e tiveram papel fundamental na expansão mundial da arte suave.

Mais de três décadas depois, a relação começa a ganhar um novo capítulo.

Se naquele momento o Jiu-Jitsu ajudou a construir a história do UFC, agora é o UFC que tenta utilizar sua estrutura, marca e experiência no entretenimento esportivo para ocupar um espaço relevante dentro do próprio Jiu-Jitsu.

E não se trata apenas de colocar o logotipo do UFC em um campeonato.

Reality show, eventos numerados, cinturões, atletas contratados, regras próprias, estrutura de transmissão e competições abertas começam a formar as diferentes camadas de um mesmo produto.

UFC pode mudar o mercado do Jiu-Jitsu profissional?

Ainda é cedo para saber qual será o tamanho do UFC BJJ no longo prazo.

O Jiu-Jitsu competitivo já possui organizações consolidadas e modelos diferentes entre si. A IBJJF ocupa posição central no calendário tradicional da modalidade, enquanto o ADCC construiu enorme prestígio no grappling sem kimono. Outras organizações também disputam atletas e audiência.

O UFC chega a esse mercado com uma vantagem difícil de ignorar: marca, experiência em promoção de esportes de combate e capacidade de transformar atletas em personagens conhecidos pelo grande público.

O crescimento do UFC BJJ pode aumentar a concorrência por grandes nomes, abrir novas possibilidades profissionais para competidores e criar mais uma rota para atletas que desejam viver exclusivamente do Jiu-Jitsu.

Por outro lado, será necessário observar até onde a organização pretende levar o projeto, qual será a expansão internacional dos eventos, como funcionará a relação com os atletas e qual espaço os Opens ocuparão no calendário competitivo mundial.

O que já parece claro é que o UFC não está mais apenas testando o Jiu-Jitsu.

Está construindo uma estrutura.

E talvez a pergunta mais interessante para os próximos anos seja justamente a mais ambiciosa:

o UFC BJJ conseguirá fazer pelo Jiu-Jitsu profissional algo parecido com o que o UFC fez pelo MMA?